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Passeio a Barca D´Alva
 

 

PASSEIO A BARCA D’ALVA

18 de mayo 2002

Já me tinham aparecido várias propostas para o passeio de Barca d’Alva, mas ainda não me tinha decidido. Sobretudo é um passeio que não precisa de organização especial e que me parecia perfeitamente possível de fazer sózinho.

O trajecto começa em Pocinho que é a última estação onde actualmente chega o combóio da linha do Douro. De Pocinho a Barca d’Alva segue-se sempre pela linha férrea que está fechada há cerca de quinze anos.

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A linha corre pela margem esquerda do Douro, sempre presente ao longo do passeio, e com lindas vistas para os montes ora em socalcos de vinhas ora com aspecto menos humanizado mas sempre bonito.

A linha férrea está completamente abandonada e inutilizada pelas derrocadas, vegetação espontânea, vandalismo ou simplesmente por falta de conservação. Felizmente as obras de arte vão-se mantendo intactas garantindo a continuidade da passagem a pé em todo o caminho.

Embora por vezes se consiga andar por um pequeno trilho lateral à via, grande parte do caminho tem mesmo de ser feito pelo meio, ou mesmo junto às linhas.

Isto quer dizer que temos de andar em cima dos dormentes ou pelo menos em cima do cascalho.

Esta situação lembra-me o António Pires que, andando sobre um piso de madeira só com a estrutura, antes de ter o soalho, dizia:

- Isto aqui é como o frango. É demais para um e de menos para dois.

De facto, andar em cima dos sleepers é difícil. A distância entre eles é curta para um passo e grande para meio passo. Também não dá jeito pôr o pé no intervalo. Por outro lado andar no cascalho é muito mau porque o piso é inconsistente dando uma passada muito má. É com esforço que se consegue manter uns 3km/h.

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Ao fim dos 28km de caminho (7h) fiquei cansado. Mas não foi o cansaço dos músculos das grandes ascensões, nem os ligamentos das grandes descidas, nem as pernas moles das visitas aos museus. Realmente andar nas chulipas mexe com músculos que não são os do costume.

Todas as antigas estações estão abandonadas e vandalizadas ficando com um péssimo aspecto.

Na área imediatamente próxima das estações e nos outros (poucos) locais com eventual acesso automóvel há bastante lixo, mas fora destes sítios (julgo que em termos ferroviários se diz "em plena via"), um pouco mais longe dos acessos fáceis, já quase não vai ninguém e tudo está mais limpo.

A linha não está só fechada, mas completamente abandonada. Há várias zonas onde já não é posível andar pelo meio dos carris por causa do grande mato que entretanto foi nascendo ou das derrocadas que são muitas e que vão ficando sem conserto.

Em alguns sítios, não sei porquê, estiveram a tirar os parafusos que prendem os carris aos sleepers, mas deixaram tudo em montes ao longo da linha e ninguém os veio buscar. Noutros locais queimaram os sleepers mas o trabalho ficou por metade e o aspecto consequente é miserável.

O balanço é no entanto positivo. Fora destas zonas mais difíceis o caminho faz-se muito bem, há um grande sossego e a paisagem é linda. Apesar do abandono da linha e da tão apregoada desertificação do interior dá gosto ver que os montes continuam cuidados e tratados e aparentemente a produzir. E de facto devem ser produtivos porque ainda se estão a fazer socalcos, não só para vinha mas também (julgo eu) para amendoeiras ou oliveiras.

Como vi, a modelação do terreno é agora feita mecanicamente, com escavadoras, mas não posso deixar de pensar nos heróis que em tempos fizeram toda aquela obra à enxada e picareta e sobretudo à força de braços. Independentemente das circunstâncias mais ou menos forçadas em que trabalhavam, para conseguir uma obra daquelas foram mesmo heróis. E não há melhor ponto de vista para este quadro, do que um passeio à beira-rio.

Isto de andar sózinho tem as suas vantagens pelo menos a nível de ritmo que é o nosso e o de mais ninguém. Também é diferente a nível sonoro porque, excepção feita para as zonas de cascalho, consigo andar com alguma descrição e ver muito mais bicharada. Os torcazes com manchas brancas nos ombros e que batem as asas uma na outra quando levantam assustados, as perdizes com pernas vermelhas e asas curtas que ao levantar fazem aquele característico barulho de hélice, os abelharucos todos em verdes e amarelos, ou as rolas com o rabo debruado a branco.

Á aproximação de Barca d’Alva recomeçam os tristes sinais urbanos com lixo, pneus, automóveis velhos e as inevitáveis pequenas hortas de couves galegas.

Durante todo o caminho fui pensando como deveria ser agradável a viagem de combóio por este troço de linha e como é pena estarem agora abandonadas todas estas estruturas.

Actualmente o trajecto entre Pocinho e Barca d’Alva fez-se por um sistema de minicamionetas que substituiu o combóio. A última carrinha (e julgo que a única) do dia chegou a Barca d’Alva ao mesmo tempo do que eu, e trazia duas turistas. O motorista queixou-se amargamente de durante toda a semana ter feito o trajecto sózinho por obrigação de cumprir o calendário. As únicas duas passageiras da semana, foram as turistas do sábado!

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Em Barca d’Alva tive de esperar que o motorista do único táxi local acabasse de almoçar. Depois tive também de esperar pelas duas turistas que iriam partilhar o único transporte do dia e finalmente partimos para Pocinho.

De Pocinho parti para Vila Nova de Foz Côa à procura de lugar para dormir. De lá para Figueira de Castelo Rodrigo, mas só consegui lugar em Guarda.

Também não fez mal porque não conhecia a cidade, que foi engraçada de descobrir. Tem uma maravilhosa Sé gótica, com um belo retábulo renascentista, e tem uns bonitos troços de muralha da cidade. O largo da Sé também é óptimo, com umas excelentes esplanadas debaixo de uma arcada muito antiga e muito bonita.

© texto y dibujos Pedro MB Cabral

 

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